De professor para professor

Sobre paisagens, línguas e escola: qual pode ser o lugar da língua inglesa na escola

Paola Salimen

07 ago 2026

8 min de leitura

Este texto nasce de um convite para tecer reflexões sobre a língua inglesa na escola e, como um rio, foi ganhando corpo e força com a participação de diferentes afluentes: experiências no Espaço Kando e na Escola Primeira, no contexto do programa bilíngue autoral da escola, o First Way. O convite da Diálogos foi amplo e generoso: a língua inglesa na escola. Um texto que inspirasse, que conversasse e promovesse questionamentos. A partir dos afluentes já trazidos, elegi compartilhar uma reflexão acerca das possibilidades da língua inglesa como parte da paisagem linguística e sonora da escola.

Como cheguei nesse tema?

Em uma visita pedagógica ao Kando – Espaço Pela Infância, em Santana do Parnaíba, minha atenção pousou em uma instalação chamada “Paisagem Sonora”, na Praça da escola.

Na visita ao Kando, vi uma instalação relacionada a uma pesquisa sobre a paisagem sonora da praça central da escola de educação infantil.

Imagem 1: Registro fotográfico da instalação “Paisagem Sonora” no Kando

Nela, as crianças, por meio de linguagens diversas, tornavam visíveis os diferentes sons que compunham a paisagem sonora daquele ambiente tão central na arquitetura da escola. O que se ouve quando se está na praça? era a pergunta guia. Como os diferentes sons fazem parte da paisagem e da existência da escola? O que conseguimos descobrir sobre a escola, a praça e o território escolar a partir de sua paisagem sonora?

De pronto, lembrei das pesquisas da saudosa Eliana Shohamy sobre paisagens linguísticas: “qualquer exibição em espaços públicos que comunique tipos variados de mensagens” (Shohamy, 2019). Apesar de se referir a placas, letreiros e outros textos visíveis em uma paisagem, aqui tomo a liberdade de expandir esse conceito para refletirmos, também, sobre as linguagens e línguas que compõem de modo efêmero o espaço sonoro e os ambientes da escola. 

É interessante notar que crianças e professoras não só respondem a essa paisagem (no sentido de orientar-se, tomar decisões acerca das línguas que usam, do volume de voz empregado das práticas sociais nas quais se engajam), mas também a constroem ao mesmo tempo em que participam dela (Dagenais et al, 2009).  Nesse sentido, investigar a paisagem linguística e sonora na escola é, também, investigar cultura. Vendo os diferentes sons que as crianças tornaram visíveis ali, me perguntei: como se constroi a paisagem linguística e sonora de uma escola que tem a formação de sujeitos bi/multilingues como pilar do seu projeto político pedagógico? Que línguas e linguagens a formam? Como as crianças e professoras respondem a essa paisagem ao mesmo tempo em que a constroem?

Esse foi o ponto de partida para uma reflexão feita com a equipe do First Way da Escola Primeira nesta volta às aulas. Com inspiração na instalação da Kando, Vandréa Apostolopulos, coordenadora do First Way, Simone Sobral (atelierista) e eu, propusemos uma provocação-ateliê para a equipe: como você representaria a paisagem sonora/linguística do First Way?

Imagem 2: Registros fotográficos do ateliê proposto à equipe docente

Desse ponto de partida, surgiram falas muito potentes, principalmente relacionando as práticas sociais concretizadas e (em alguma medida) atreladas aos diferentes ambientes e as diferentes linguagens mobilizadas. Como exemplo, trazemos a representação feita pelas professoras Vitória Guidi e Isadora Mariano (responsáveis pela turma multietária de 3º, 4º e 5º ano do First Way).

Imagem 3: Produção das professoras Vitória Guidi e Isadora Mariano

As professoras Vitória e Isa escolheram se debruçar na paisagem sonora e linguística do momento de almoço no espaço Samambaia. Nas palavras das professoras:

“Está rolando essa transição da língua também, né, que a gente faz esse convite pra eles já começarem ali – entendendo que a gente não está ainda dentro da sala de aula, mas que a gente está chegando lá. (…) A gente colocou algumas palavras que também fazem parte: conversa, silêncio, respeito. A gente fez esse prato de palavras. Eles estão contando do fim de semana, play, fruit, lunch, class, 1st, weekend. Aqui um pouco das onomatopeias deles comendo. (risos)

É interessante ver como a fala e a representação feitas pelas professoras tornam relevantes as diferentes linguagens presentes de modo situado nesse contexto de transição entre a aula do turno regular de aulas e o momento de início do programa bilíngue e relaciona as diferentes linguagens a práticas sociais marcadas nesse momento da rotina das crianças.

Esse exercício nos possibilitou também dar visibilidade a representações das professoras das práticas que associam e das língua(gen)s que marcam as interações nos diferentes ambientes e momentos do programa. Pensamos coletivamente também sobre determinados ambientes e momentos da rotina do programa e as línguas que marcaram a paisagem sonora desses territórios. 

Retomando as palavras da pesquisadora Daiane Dagenais e colegas: “os atores sociais não apenas respondem à paisagem linguística”, no sentido de se orientar a ela para agir e, inclusive, fazer escolhas linguísticas, “mas também a moldam”, ou seja, também têm papel na construção dessa paisagem, agindo sobre ela, construindo-a e modificando-a a cada momento. Nesse sentido, a reflexão que propusemos à equipe é o papel das professoras na construção dessa paisagem: que intervenções fazemos? Que andaimes proporcionamos para ampliar as participações na língua inglesa? Que “dicas” o ambiente preparado intencionalmente pode dar?

A reflexão acerca das paisagens linguísticas e sonoras da escola, em diferentes momentos do dia, pode ser um excelente início de conversa sobre cultura escolar e o modo como as diferentes línguas integram o cotidiano na escola. 

Afinal, a língua não (se) habita como uma estrutura rígida, mas como um curso d’água que atravessa os pátios, os pratos, os encontros e as pausas. Ao aguçarmos o olhar e o ouvido para a paisagem que as crianças e professoras desenham no ar a cada som e gesto, percebemos que aprender uma língua é, antes de tudo, aprender a pertencer a um novo ecossistema. Que estas linhas sejam afluentes para outras águas — e que possamos, em cada escola, continuar a escutar as marés de vozes que moldam e transformam o nosso viver juntos.

Mapear os sons da escola é reconhecer que como a língua inglesa pode ser constituinte dos ambientes que desenhamos e brotar de práticas, interações e intervenções intencionais. Cabe a nós, educadores, refletir, articular, planejar e investigar nossas práticas para que a paisagem da escola seja, cada vez mais, composta pelas diferentes línguas que compõem o projeto político pedagógico da escola.

Paola Salimen

Mestre e doutora em Estudos da Linguagem: Linguística Aplicada — Linguagem e Contexto Social pela UFRGS, com pesquisa em antropologia da linguagem e etnografia em contextos escolares. Acredita que não há teoria de ensino e aprendizagem que seja autônoma das situações reais que a moldam, assim como práticas educativas impulsionam seu desenvolvimento por meio de informação, reflexão e planejamento contínuos. Descobriu na abordagem projetual um meio potente para promover a formação de sujeitos bi/multilíngues curiosos e para nutrir a formação docente a partir de práticas de pesquisa. Com mais de vinte anos de experiência em escolas e ambientes de aprendizagem, busca enxergar projetos educacionais como oportunidades de colaboração e crescimento. Sua trajetória inclui posições de liderança escolar (coordenação e direção), docência, assessoria pedagógica e participação na elaboração de materiais didáticos e de documentos de políticas públicas. Atua como consultora em escolas bilíngues, internacionais e que valorizam a formação de sujeitos bi/multilíngues, especializando-se em práticas pedagógicas inovadoras e no desenho de currículos alinhados às demandas contemporâneas. Como autora, integrou equipes de produção de materiais didáticos e contribuiu para projetos de políticas educacionais para organizações do terceiro setor, redes privadas de ensino e editoras. Participou da revisão técnica da edição brasileira do título “Everyday English”, publicado pela Editora Diálogos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


O período de verificação do reCAPTCHA expirou. Por favor, recarregue a página.

explorar

Veja também

De professor para professor
Fábio Monteiro 08 jun 2026
De professor para professor

Narrativa digital

O projeto STORIES Os temas centrais do projeto Erasmus Plus STORIES (2015-2018), do qual participaram…

Chiara Bertolini, Annamaria Contini, Lorenzo Manera e Andrea Pagano 28 abr 2026