De professor para professor

Caixas pedagógicas, mistérios a resolver

Maria Victoria Alfieri

24 nov 2025

4 min de leitura

À primeira vista, uma caixa parece um objeto simples: quatro lados, uma tampa e um interior esperando para ser descoberto. Mas na escola, especialmente naquelas que se atrevem a reinventar a experiência de aprender , uma caixa pode se transformar em um território. Para nós, as caixas pedagógicas nasceram como uma inspiração direta do encontro com escolas de Barcelona de nova criação, como a Escola Xandri, Les Encants e El Martinet, onde aprender acontece com o corpo, com os sentidos, com a curiosidade e com a liberdade de tocar o que não está predeterminado. 

Aquelas primeiras caixas cheias de objetos misteriosos, texturas diversas, ferramentas inesperadas e materiais sugestivos revelavam um modo de trabalho que hoje reconhecemos como pensamento artesanal. Um pensar que se constrói na escolha cuidadosa, no tempo lento, na pergunta pelo sentido e pelo outro que vai encontrar-se com ela.

 Em um tempo dominado pela inteligência artificial, poderíamos imaginar milhares de propostas sofisticadas que excedem o que cabe dentro de uma caixa. Mas a caixa conserva algo insubstituível: a mão que a cria. Porque quem a desenha, aprende. Aprender a observar, a selecionar, a imaginar o outro que a abrirá, a construir uma ponte entre materiais e experiências. Antes de ensinar, a caixa ensina a quem a faz. 

E aqui aparece uma convicção que a prática confirma repetidas vezes: “As crianças amam a dificuldade”. Por isso é necessário construir complexidades para que elas possam atravessá-las. Não se trata de obstáculos, mas de desafios que despertam a inteligência, o jogo, a exploração e a autonomia.

Caixas para criar mundos 

Quando pensamos em caixas pedagógicas, não as limitamos a áreas disciplinares. Sim, podem existir caixas de matemática, de língua, de ciências ou de astronomia, mas também caixas que ampliam o imaginário e a experiência:

 A caixa de flores, para observar, classificar, desmontar, cheirar, secar, desenhar e criar. 

A caixa de enfermagem, para cuidar, criar histórias, aprender sobre o corpo e brincar com a empatia. 

A caixa de ferramentas, onde as crianças descobrem o peso, a força, a função e a responsabilidade de usar objetos reais.

 A caixa de texturas, a caixa de música, a caixa de sombras, a caixa do tempo, a caixa do vento… 

Cada caixa é um convite a um mundo possível. E cada mundo tem suas perguntas, seus mistérios e seus modos de ser explorado. 

Caixas que crescem com a comunidade 

Podemos imaginar, inclusive, que os estudantes mais velhos  do sexto ou sétimo ano  desenhem caixas para os menores. Caixas aventureiras, curiosas, surpreendentes; caixas que misturem saberes e afetos, que sejam uma ponte entre gerações. No ato de construir para o outro surge uma aprendizagem profunda: compreender o outro para criar algo significativo. 

As famílias também podem fazer parte desse tecido. Um encontro comunitário pode transformar-se em um ateliê de criação: cada família traz uma caixa com um significado próprio, e juntas imaginam o que guardar dentro e o que construir fora. Porque a caixa não é um limite: é um ponto de partida. Pode expandir-se, estender-se, transformar-se em linhas que rolam, fios que se entrelaçam, estruturas que se ampliam. E nesse entrelaçamento também se tecem a conversa, a criatividade, a memória e a educação.

 Materiais que falam 

As próprias caixas dizem algo: podem ser de papelão, de lata, de madeira, de plástico ou transparentes. Podem ser leves ou pesadas, frágeis ou resistentes. Cada material propõe um modo de manipular, de abrir, de olhar. Uma caixa metálica soa diferente; uma caixa transparente deixa ver o que esconde; uma caixa de papelão convida a ser pintada, transformada, reinventada. O material também educa. 

Caixas que contam histórias 

Na formação docente, as caixas reaparecem como objetos potentes. As fotografias que acompanharão este texto  caixas têxteis, matemáticas, sensoriais, mostram algo essencial: que desenhar uma caixa é desenhar uma experiência. E que, nesse fazer, entra em jogo uma maneira de pensar, de imaginar e de construir conhecimento. 

Talvez este relato funcione como um primeiro imaginário para abrir outros milhares: caixas cheias de interrogantes, de mundos, de complexidades, de histórias que esperam para ser contadas. Caixas que não apenas contêm: criam possibilidades.

Maria Victoria Alfieri – Directora de Aletheia e Colégio Del Sol

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