De professor para professor

Investigação na escola é uma modalidade de ensino?

Carolina Kerr

22 maio 2025

5 min de leitura

O que é investigação no contexto escolar?

Hoje vamos falar sobre investigação na escola. Essa palavra não é nova no universo escolar — muitos de nós, inclusive, temos lembranças marcantes associadas a ela. Eu me lembro, por exemplo, de quando era criança e visitava o laboratório de ciências da escola. Lá, investigávamos plantas, animais, gotas de sangue e um universo microscópico impressionante. Eram aulas envolventes, cheias dos mistérios da ciência a serem desvendados. Eu esperava ansiosa por elas.

Ainda hoje, a investigação parece estar muito ligada às aulas de Ciências.

Na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), por exemplo, a Competência Geral 2 — Pensamento científico, crítico e criativo — nos orienta a:

“Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.”

No componente curricular de Ciências da Natureza, a BNCC reforça:

“O ensino de Ciências deve se organizar como uma prática investigativa, que promova a formulação de perguntas, a construção de hipóteses, a experimentação, a análise e o debate de ideias.”
(BNCC – Ensino Fundamental – Ciências, p. 322)

Nesses dois exemplos, a investigação escolar aparece como um método de ensino aplicado a determinados conteúdos, especialmente aqueles das áreas científicas.

Uma nova perspectiva sobre investigação na escola

Mas e se pensarmos a investigação por outro viés? Desde 2012, venho pesquisando — e vivendo na prática — uma outra forma de entender a investigação: como uma maneira de estar no mundo e de aprender.

Investigação como expressão da curiosidade humana

Paulo Freire nos oferece uma chave potente: ele afirma que a investigação é o desdobramento crítico da curiosidade. Em sua obra, Freire distingue duas formas de curiosidade:

  • A curiosidade ingênua, presente desde a infância, que se expressa por perguntas espontâneas sobre o mundo.
  • A curiosidade epistemológica, mais elaborada, que impulsiona a investigação, a análise crítica e a construção de conhecimento.

Segundo ele, o papel da escola não é sufocar a curiosidade com respostas prontas, mas alimentar caminhos para que ela se transforme em curiosidade investigativa — aquela que nos impulsiona a observar com atenção, formular hipóteses, buscar explicações, comparar, argumentar e questionar.

“A prática educativa exige a aceitação da curiosidade como insubstituível no processo da produção do conhecimento. A investigação nasce exatamente da necessidade de compreender aquilo que ainda não sabemos.”
(Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia, 1996, p. 80)

O que ainda não sabemos?

No livro A Ilha do Conhecimento: Os Limites da Ciência e a Busca por Sentido, o físico Marcelo Gleiser apresenta uma metáfora poderosa. Ele descreve o conhecimento humano como uma ilha cercada por um oceano de ignorância. À medida que expandimos a ilha — ou seja, adquirimos mais conhecimento — aumentamos também a borda de contato com o desconhecido.

“Quanto mais sabemos, melhor entendemos a vastidão de nossa ignorância e mais perguntas somos capazes de fazer, perguntas que, previamente, nem poderiam ter sido sonhadas.”
(Gleiser, 2015, p. 23)

Essa metáfora nos provoca a pensar: vivemos sempre no campo do não saber, mas é justamente aí que habitam as possibilidades de novas perguntas e descobertas.

Investigar é reinventar o mundo

Investigar, portanto, não é apenas um recurso didático — é um modo de existir. É próprio do humano. No entanto, a forma como muitas escolas organizam a aprendizagem, centrada na representação e na reprodução de conteúdos, tende a sufocar essa potência.

Aqui, podemos ampliar a discussão com o conceito de aprendizagem inventiva, proposto pela pesquisadora Virginia Kastrup. Ela nos convida a compreender a cognição sob duas óticas:

  • Cognição como representação: eu aprendo para adquirir um saber já existente.
  • Cognição como invenção: eu aprendo para inventar a mim mesma(o) e o mundo — aprendo para continuar aprendendo.

Essa segunda visão encontra eco no pensamento freireano:

“Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros.”
(Paulo Freire, 2015)

O que a investigação tem a ver com a escola?

Tudo. Para refletir sobre a potência da investigação no cotidiano escolar, precisamos revisitar nossas concepções de aprendizagem. Elas não estão separadas da forma como vemos o ser humano e o funcionamento da mente. Se desejamos uma educação transformadora, é essencial problematizar como essas concepções se traduzem em nossas práticas pedagógicas.

Um convite à investigação poética

E para quem gosta de música, deixo um convite final: ouça “Índia”, de Gilsons. A letra é um chamado à investigação poética da vida:

“Deixa que a dúvida venha a respeito da vida
Iluminado seja aquele que já sabe o que é
E eu já não sei quase nada sobre tudo de você
Melhor não saber nada, assim posso entender.”

por Carolina Kerr

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