Se é verdade que no início era o verbo, ele só pôde existir porque alguém escutou…
A escuta dá existências às coisas, às histórias, aos sujeitos, ao mundo… tira do anonimato e da
invisibilidade.
Sem escutarmos o outro e sem alguém que nos escute, somos tal qual a personagem Eco da
mitologia grega… apenas fechados em nosso mundo a repetir, repetir indefinidamente…
mente… mente… mente… presos em nós mesmos, sem conseguir dialogar e nos conectar com
o outro.
A escuta é acima de tudo conexão, estado de presença e disponibilidade… é quando abrimos
espaço em nós para nos deixarmos afetar pelo outro, pelo mundo.
Uma vida sem escuta nos conduz ao estado de embrutecimento, aniquilamento e
anestesiamento. A escuta nos convida a acordar todos os nossos sentidos, nosso corpo,
mente, alma e assim estarmos inteiros para o ato da escuta.
Por isso mesmo, a escuta requer coragem… entrega… É como iniciar uma viagem, sem saber o
destino de chegada e mesmo assim seguir…
É con-fiar no outro, no caminho, no encontro!
Se é verdade, como anunciava o poeta Jorge Luís Borges, que o sabor da maçã não está na
fruta em si, e sim no contato da fruta com o palato, e que a poesia não está nas linhas dos
símbolos impressos nas páginas de um livro e sim no encontro do poema com o leitor, a escuta
também não está situada nem em mim, nem em você… A escuta só acontece se existe o
encontro!
O encontro que cria, que descortina, que incomoda, que impacta, que desmorona certezas,
desestabiliza e, assim, possibilita que o novo se instale.
A escuta é necessária para que o mundo não envelheça, não se cristalize, assim como nós…
porque algo em nós também morre quando ficamos surdos e indiferentes ao mundo.
A escuta se dá no ato do encontro!
Encontro com os seres, com o mundo e, assim, (re)encontro consigo, com nossa essência.
A escuta nos lembra de quem somos, lembra que somos feitos de poeira das estrelas como
evidenciou o cientista Carl Sagan, nos lembra que somos feitos de histórias, como nos afirma o
poeta Eduardo Galeano, que somos feitos de nossos antepassados como nos lembram os
povos originários do Brasil. Somos feitos de miudezas…
Somos frutos de muitas vozes, muitas delas silenciadas e caladas, e por isso escutar a história
se faz necessário: a nossa como indivíduos, a nossa como nação e sociedade e a nossa como
filhos e filhas da Terra e do Cosmos.
Escutando e percebendo que, no fim, somos parte de uma mesma sinfonia.
Uma sinfonia que, para ressoar (e não apenas ecoar), precisa nascer de uma profunda,
autêntica, complexa e necessária escuta.
Escuta que nos dará a matéria-prima para construir novos mundos e possibilidades, mundos
mais justos, dialógicos, onde caibam todas as vozes, de grandes e pequenos, todas compondo
uma só sinfonia formada, no entanto, pela expressão autêntica da nossa canção individual.
E você, já escutou sua canção?

Bruna Ribeiro
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